Um homem moderno, portando um armazém repleto de mantimentos, chega a uma época marcada pela escassez de roupas e alimentos. Poderia ele ser considerado o mais rico de todos?
— 1965...
Num quarto modesto, Chu Heng, recém-chegado de outra época, olhava perplexo para metade de um calendário pregado na parede. Em sua mente, uma torrente de imagens e etiquetas sobre aquele tempo emergia: pobreza, fome, caos, sem celular, sem computador, sem WiFi, sem navegador...
— Isso é suicídio! — murmurou, aflito, coçando a cabeça enquanto tentava organizar as memórias confusas deixadas pelo antigo dono do corpo. Ele precisava confirmar sua situação.
Logo conseguiu desvendar, em linhas gerais, sua nova realidade.
Ainda era chamado Chu Heng, tinha vinte e dois anos, ex-soldado, funcionário da loja de cereais número três da Cidade Quatro-Nove, ocupando o cargo de registrador, com status de funcionário de nível vinte e quatro. Salário e auxílio totalizavam quarenta e cinco moedas e meia por mês. Morava num grande cortiço, possuía dois quartos, vinha de uma família de arrendatários, os pais eram mártires, e o único parente restante era o tio Chu Jian She, vice-diretor da administração de grãos, homem de grande influência.
— Essa identidade parece segura — suspirou Chu Heng, sentindo-se mais animado. Aproveitando a luz tênue do amanhecer, examinou o quarto.
O cômodo era extremamente simples: ao fundo, uma cama dura e antiga, feita de faia, robusta, capaz de durar mais algumas décadas. Havia também uma mesa redonda e um guarda-roupa, ambos parecendo obra do mesmo carpinteiro.
Perto da janela, um fogão de carvão, com um cano de ferro improvisado, estendendo-se para fora. Era início de inverno; vivendo sozinho, Chu Heng não