Um jovem promissor oriundo da era moderna tem sua alma transportada para o corpo de Fang Chongyong, um adolescente vivendo na era de ouro do reinado Kaiyuan da dinastia Tang. Excetuando-se o pai irresponsável, cuja súbita desaparição deixara para trás uma série de problemas insolúveis, a vida de Fang Chongyong transcorria de forma relativamente agradável. Apenas um pouco mais atribulada, mais árdua, marcada por perigos constantes e por um futuro incerto e sombrio. Afinal, ainda estávamos nos anos de Kaiyuan; restavam mais de dez anos até a era Tianbao, um largo período de paz à sua disposição para ser desfrutado sem pressa. Fang Chongyong acreditava, com a convicção de suas próprias capacidades, que poderia levar uma existência serena e despreocupada até o fim de seus dias. Até que, muito tempo depois, uma notícia vinda de Youzhou, no Norte, abalou-lhe o destino: An Lushan, o famoso general bárbaro, fora decapitado—e o nome do algoz era Fang Youde. “Fang Youde? Por que este nome é igual ao do meu pai?” Foi então que Fang Chongyong percebeu ter-se deparado com um problema insolúvel e terrível.
Na China antiga, desde o surgimento das crônicas históricas, fossem elas as histórias oficiais editadas pelo Estado ou as crônicas extraoficiais dos literatos, todos aqueles que se dedicaram à compilação dos anais foram, sem exceção, a elite da sociedade, empunhando a pena como um látego e tomando a História por espelho.
Os cronistas exalavam orgulho em sua missão, a tal ponto que, como Sima Qian e seus pares, mesmo diante da destruição de seus escritos, jamais se destruíam a si próprios; fracassando, recomeçavam do princípio.
Talvez os contemporâneos não percebessem, mas milênios depois, só então se reconheceria o verdadeiro poder desses cronistas.
Os feitos das dinastias passadas, quase sempre, eram aquilo que eles diziam que eram! O imperador governa o presente, mas eles governam para a eternidade!
Mas agora, os tempos mudaram.
Um professor universitário de História, ainda que erudito e detentor de vasto saber, jamais alcança, em número de leitores, sequer um autor mediano de romances históricos na internet.
Quanto à influência social, menos ainda.
Mesmo que tal autor de romances virtuais divulgue absurdos e tome a ficção por verdade, desde que conte bem a história, terá sempre quem o vanglorie.
Com muitos ouvindo, muitos replicando, o absurdo converte-se em “história oficial”, e a autêntica História perde seu lugar, ninguém mais se importa com a verdade do passado.
Sob este prisma, cada autor de romances históricos na web pode ser herói ou vilã